Enxaqueca: como prevenir e tratar as crises
Enxaqueca não é uma simples dor de cabeça. Explico os gatilhos, o tratamento agudo com anti-inflamatórios e triptanos, e a prevenção com propranolol e novos fármacos.
A enxaqueca é uma das consultas mais marcantes na medicina geral e familiar.
Pacientes que sofreram durante décadas, considerados "queixosos" pela família, chegam finalmente ao consultório com a esperança de que existe mais do que um comprimido de paracetamol para fazer.
A enxaqueca é uma doença neurológica, crónica, com fisiopatologia distinta da cefaleia tensional.
Afeta cerca de 15 por cento da população portuguesa, predominantemente mulheres em idade ativa, e é uma das principais causas de incapacidade antes dos 50 anos.
Neste guia, elaborado pela equipa editorial da Prescriptsy, explica-se como reconhecer uma crise, que fazer no momento da dor, como prevenir ataques frequentes e quando recorrer a acompanhamento especializado em neurologia.
O que distingue a enxaqueca
Uma crise típica de enxaqueca dura entre 4 e 72 horas sem tratamento.
A dor é geralmente unilateral (embora possa ser bilateral), pulsátil, de intensidade moderada a intensa, e agrava-se com o esforço físico.
Acompanha-se tipicamente de pelo menos um dos seguintes: náuseas, vómitos, fotofobia (aversão à luz) e fonofobia (aversão ao som).
Em cerca de um terço dos casos, a crise é precedida por uma aura visual, sensorial ou de linguagem.
É importante distinguir sempre da cefaleia de tensão (bilateral, em banda, não pulsátil, não agrava com esforço) e da cefaleia em salvas (dor muito intensa periorbitária, curta, com sinais autonómicos).
A história cuidadosa costuma dar o diagnóstico sem necessidade de exames.
Os gatilhos mais comuns em Portugal
Cada pessoa com enxaqueca tem um perfil próprio de gatilhos. Na prática clínica os mais frequentemente identificados são:
- Privação ou excesso de sono: dormir a menos mas também dormir demais ao fim de semana.
- Saltar refeições: a hipoglicemia relativa é desencadeante frequente.
- Álcool, particularmente o vinho tinto e bebidas com histamina.
- Alterações hormonais: crises peri-menstruais e na perimenopausa.
- Stress e seu alívio: cefaleia de "fim de semana" ou primeiro dia de férias.
- Alterações do tempo: oscilações de pressão atmosférica, sobretudo no inverno atlântico.
- Alimentos específicos: queijos curados, chocolate, enchidos ricos em nitritos, glutamato monossódico.
- Desidratação e calor: especialmente nos meses de verão em Portugal.
Diário da enxaqueca: a ferramenta mais subestimada
Recomenda-se a todos os pacientes que preencham durante três meses um diário simples: dia, hora de início, duração, intensidade (0-10), medicação tomada, eficácia, sono, refeições, álcool, stress e ciclo menstrual.
Na maioria das consultas, o diário revela padrões que antes passavam despercebidos tanto ao doente como ao médico. Pode fazer-se em papel, folha de cálculo ou aplicação.
O importante é a consistência.
Tratamento agudo: o que tomar quando a crise começa
A regra fundamental é tratar cedo e em dose adequada. Tomar meia dose quando a dor está em 7 por 10 é quase sempre ineficaz.
Tomar dose cheia nos primeiros 30 minutos da crise mais do que duplica a probabilidade de alívio completo.
Primeira linha: anti-inflamatórios
Os AINE (anti-inflamatórios não esteroides) são a primeira linha em crises leves a moderadas. Naproxeno 500 a 1000 mg, ou diclofenac 50 a 100 mg (comprimido ou solução oral), são muito eficazes quando tomados precocemente. Ibuprofeno 600 a 800 mg é alternativa comum. Acrescentar um antiemético como metoclopramida ou domperidona melhora a absorção e reduz a náusea.
Triptanos
Quando os AINE falham ou a crise é intensa desde o início, os triptanos (sumatriptano, zolmitriptano, rizatriptano, eletriptano) são a alternativa.
Atuam como agonistas da serotonina no sistema trigeminovascular. Funcionam em 60 a 70 por cento dos utilizadores. Contraindicados em doença coronária, AVC prévio e hipertensão não controlada.
Opioides e combinações
O tramadol pode ser considerado em situações excepcionais, mas não é primeira linha e o seu uso frequente associa-se a cefaleia de uso excessivo. Por esta razão, evita-se prescrever combinações com codeína para a enxaqueca.
Cefaleia de uso excessivo de medicação
Este é um alerta importante. Quem toma analgésicos simples mais de 15 dias por mês, ou triptanos e combinações mais de 10 dias por mês, durante três meses consecutivos, desenvolve cefaleia crónica diária induzida pela própria medicação. O tratamento é a suspensão, por vezes difícil, com suporte médico. A Sociedade Portuguesa de Neurologia publica orientações detalhadas sobre esta condição.
Quando iniciar prevenção
Considera-se tratamento preventivo quando:
- Há 4 ou mais crises de enxaqueca por mês.
- As crises duram mais de 48 horas apesar de tratamento agudo adequado.
- O tratamento agudo é ineficaz, contraindicado ou mal tolerado.
- Existe risco de cefaleia de uso excessivo.
- As crises provocam incapacidade significativa (perda de dias de trabalho, alteração marcada da qualidade de vida).
Fármacos preventivos clássicos
Propranolol e outros betabloqueadores
O propranolol é frequentemente a primeira escolha em adultos sem asma, sem bradicardia, sem hipotensão significativa. Inicia-se em 40 mg duas vezes ao dia, subindo lentamente até 80 a 160 mg totais diários. A resposta avalia-se após dois a três meses. Reduz a frequência de crises em cerca de 50 por cento em respondedores.
Topiramato
Antiepiléptico eficaz na prevenção. Doses típicas 50 a 100 mg/dia, titulação lenta. Limitações: parestesias, alterações cognitivas, perda de peso (às vezes bem-vinda), risco teratogénico.
Amitriptilina
Antidepressivo tricíclico em dose baixa (10 a 50 mg à noite). Útil se coexistirem insónia ou cefaleia tensional. Boca seca, sonolência matinal e ganho de peso são limitações.
Candesartan, flunarizina, valproato
Alternativas em casos selecionados, com perfis específicos de tolerabilidade.
A revolução CGRP
Os anticorpos monoclonais anti-CGRP (erenumab, fremanezumab, galcanezumab) e os "gepantes" orais (rimegepante, atogepante) são a maior inovação da última década no tratamento da enxaqueca. Atuam no péptido relacionado com o gene da calcitonina, mediador-chave da dor trigeminal. Bem tolerados, eficazes em doentes com falência de múltiplos preventivos clássicos. A prescrição em Portugal segue critérios específicos e, na maioria dos casos, requer consulta de cefaleias. O portal SNS 24 disponibiliza informação sobre referenciação hospitalar.
Botox para enxaqueca crónica
A toxina botulínica (onabotulinumtoxina A) está autorizada para enxaqueca crónica (definida como 15 ou mais dias de cefaleia por mês, dos quais pelo menos 8 com características de enxaqueca).
Aplica-se em 31 pontos da cabeça, pescoço e ombros, a cada 12 semanas. Feita por neurologistas em consultas dedicadas.
Estratégias não farmacológicas com evidência
Não são "acessórios" nem "naturalezas vagas". Têm evidência sólida:
- Regularidade do sono: ir deitar e levantar sempre às mesmas horas, incluindo ao fim de semana.
- Alimentação regular: três refeições, sem saltar pequeno-almoço. Evitar picos e quedas glicémicas.
- Hidratação: 1,5 a 2 litros de água por dia.
- Exercício aeróbico: 150 minutos semanais (caminhada, corrida, natação, bicicleta). Reduz frequência e intensidade das crises.
- Terapia cognitivo-comportamental: especialmente útil em enxaqueca associada a ansiedade ou depressão.
- Biofeedback e relaxamento progressivo: evidência moderada mas consistente.
- Riboflavina 400 mg/dia, magnésio 400 a 600 mg/dia, coenzima Q10 150 a 300 mg/dia: suplementos com evidência limitada mas aceitável, úteis em doentes que preferem evitar fármacos preventivos.
Enxaqueca e hormonas femininas
Muitas mulheres têm crises previsíveis nos dois dias antes até ao segundo dia da menstruação. Opções incluem: AINE profiláctico nesse intervalo, triptanos de semivida longa (naratriptano, frovatriptano) em esquema curto, e em alguns casos ajuste da contracepção hormonal. Na enxaqueca com aura, os contraceptivos combinados com estrogénio estão contraindicados pelo risco vascular; a pílula só progestagénica é a opção habitual. Ver a categoria alívio da dor e inflamação para outras opções sintomáticas.
Crianças e adolescentes
A enxaqueca pediátrica existe e é frequentemente subdiagnosticada. As crises são mais curtas (1 a 48 horas), frequentemente bilaterais, com grande sonolência pós-crise.
Ibuprofeno em dose ajustada ao peso e ambiente escuro e silencioso resolvem a maioria. Casos recorrentes devem ser avaliados por pediatra ou neurologista pediátrico.
Sinais de alarme que obrigam a investigação
Nem toda a cefaleia nova é enxaqueca. Deve pedir-se TC ou RM urgente perante:
- Cefaleia súbita, "a pior da vida", em segundos.
- Cefaleia nova após os 50 anos.
- Cefaleia com febre, rigidez da nuca, rash.
- Défices neurológicos persistentes (fraqueza, alteração da fala, alteração visual).
- Cefaleia progressiva, diária, crescente.
- Alterações da consciência, convulsões.
- Cefaleia que piora com Valsalva (tossir, esforço defecatório) de forma consistente.
Conselhos práticos para o dia da crise
- Tomar o medicamento aos primeiros sinais, não quando a dor já está intensa.
- Procurar quarto escuro e silencioso.
- Hidratar-se lentamente, evitar refeições pesadas.
- Aplicar frio na fronte ou têmpora pode aliviar algumas pessoas.
- Dormir se possível; o sono costuma interromper a crise.
- Registar no diário o episódio para análise posterior.
Perguntas frequentes
A enxaqueca tem cura?
Não há cura, mas há controlo. Com prevenção adequada, muitos doentes reduzem crises em 70 a 90 por cento.
Posso tomar café durante a crise?
A cafeína tem efeito analgésico leve e potencia os AINE. Mas o uso excessivo diário pode causar cefaleia de abstinência. Moderação.
É hereditário?
Há forte componente genética. Filhos de pais com enxaqueca têm 50 a 75 por cento de probabilidade de também terem.
Quando devo ser referenciado a neurologia?
Quando tratamentos de primeira linha falham, há dúvida diagnóstica, suspeita de enxaqueca crónica ou indicação para CGRP/botox.
Conclusão
Enxaqueca é doença, não fragilidade. Tratá-la bem exige um plano agudo eficaz, um plano preventivo ajustado à frequência e à vida da pessoa, e atenção aos gatilhos e ao estilo de vida. A INFARMED mantém disponível informação atualizada sobre os medicamentos autorizados. Quem sofre frequentemente não deve aceitar viver incapacitado; vale a pena marcar uma consulta, levar um diário e construir um plano. A qualidade de vida pode mudar drasticamente em três meses.
a equipa editorial da Prescriptsy
Nota final
Quem sofre de enxaqueca beneficia de uma abordagem estruturada, paciente e partilhada com o médico assistente.
Não há atalhos: o diário, a titulação cuidadosa dos preventivos, a higiene de sono, a atividade física regular e a gestão dos gatilhos constroem, em meses, uma vida com muito menos dor.
E quando os tratamentos clássicos falham, as novas terapias anti-CGRP oferecem hoje esperança real a pessoas que durante anos se sentiram sem opções.
Importa falar com o médico e não aceitar ficar sem plano.