Dor nas costas: que medicamentos e fisioterapia funcionam?

A dor lombar é a queixa musculoesquelética mais frequente em Portugal. Explico o que funciona nas primeiras 48 horas, quando tomar anti-inflamatórios e que fisioterapia pedir.

Em resumoA dor lombar é a queixa musculoesquelética mais frequente em Portugal. Explico o que funciona nas primeiras 48 horas, quando tomar anti-inflamatórios e que fisioterapia pedir.

A dor nas costas é, de longe, a queixa musculoesquelética mais frequente na prática clínica em Portugal.

Oito em cada dez adultos terão pelo menos um episódio significativo de dor lombar ao longo da vida.

A boa notícia é que 90 por cento dos casos agudos resolvem-se em quatro a seis semanas, mesmo com intervenção mínima.

A má notícia é que abordagens erradas nas primeiras semanas podem transformar uma lombalgia comum em dor crónica que dura anos.

Este guia, escrito pela equipa editorial da Prescriptsy, explica o que fazer nas primeiras 48 horas, que medicamentos usar, quando procurar fisioterapia, quais os sinais de alarme que obrigam a imagiologia urgente e como prevenir recidivas.

Tipos de dor nas costas

Distinguem-se três grandes grupos clínicos:

  • Lombalgia inespecífica: 85 por cento dos casos. Dor mecânica, sem irradiação para a perna, sem défices neurológicos. Origem muscular, ligamentar ou articular (facetária).
  • Dor radicular (ciática): irradiação para a nádega e membro inferior, geralmente abaixo do joelho. Associa-se a hérnia discal ou estenose foraminal.
  • Dor secundária a causa séria: fratura, infeção, tumor, inflamação reumática. Rara, mas deve ser despistada.

O que fazer nas primeiras 48 horas

O reflexo antigo era "ficar na cama". Hoje sabe-se que é exatamente o contrário. O repouso prolongado piora a evolução. O que se recomenda:

  1. Manter-se ativo dentro do tolerado: caminhar curtas distâncias, mudar de posição, evitar ficar horas sentado ou deitado.
  2. Aplicar calor local: saco de sementes aquecido, banho morno, chuveiro quente nas costas durante 10 a 15 minutos, duas a três vezes por dia. O calor relaxa o espasmo muscular.
  3. Analgesia oral: paracetamol 1 g até de 6/6 horas; se insuficiente, passar a AINE.
  4. Evitar cargas e movimentos bruscos: mas não evitar todo o movimento.
  5. Dormir em posição confortável: em decúbito lateral com almofada entre joelhos ou em decúbito dorsal com almofada sob os joelhos.

Medicamentos de primeira linha

Paracetamol

Apesar da evidência moderada, continua a ser usado, sobretudo quando há contraindicação a AINE. Dose de adulto: 500 a 1000 mg até 4 vezes por dia (máximo 3 g/dia em toma regular). Sem anti-inflamatório, mas com bom perfil de segurança.

Anti-inflamatórios não esteroides

Primeira linha na fase aguda se não houver contraindicações:

  • Diclofenac: 50 mg duas a três vezes por dia, ou versão modificada 75 a 100 mg/dia.
  • Naproxeno: 500 mg duas vezes por dia. Bom perfil cardiovascular relativo entre AINE.
  • Ibuprofeno: 400 a 600 mg três vezes por dia.
  • Celecoxib: 100 a 200 mg/dia. COX-2 seletivo, menos lesão gástrica, mais opção cardiovascular.

Usar pelo menor tempo possível (5 a 10 dias), com proteção gástrica se há fatores de risco. Cuidado em doença renal, insuficiência cardíaca, antecedentes de úlcera. A Ordem dos Farmacêuticos tem materiais úteis sobre uso racional de AINE.

Relaxantes musculares

Em espasmo muscular intenso, curta duração (3 a 7 dias). Ciclobenzaprina, tiocolchicosídeo ou tizanidina. Atenção à sonolência e quedas no idoso.

Opioides fracos

O tramadol fica reservado para dor intensa que não responde às medidas anteriores. Uso curto. Deve ser evitado em idosos por risco de confusão, obstipação e quedas. Nunca é primeira linha.

Corticoides orais

Podem ser considerados em surtos de dor radicular intensa, em curso curto (5 a 7 dias). A evidência é modesta mas aceitável em casos selecionados.

Tópicos: creme e gel

Gel de diclofenac tópico aplicado 3 a 4 vezes por dia nas zonas doridas tem evidência razoável e muito menos efeitos sistémicos. Útil em pessoas com contraindicações a AINE oral. Capsaicina tópica também é opção em dor persistente localizada.

Quando começar fisioterapia

A recomendação atual é iniciar movimento e exercício supervisionado logo que a dor aguda desça (primeiros 7 a 14 dias). A fisioterapia tem três grandes eixos:

  1. Educação: ensinar o doente a compreender a dor, posturas, ergonomia e evitar crenças nocivas (por exemplo, "tenho a coluna desalinhada", "não posso mover as costas").
  2. Exercício terapêutico: fortalecimento do core, mobilidade, alongamentos, controlo motor.
  3. Terapia manual adjuvante: massagem, mobilizações, por curtos períodos, integrada no plano de exercício.

O Serviço Nacional de Saúde tem fisioterapia disponível em cuidados de saúde primários e hospitalares; o portal SNS 24 orienta sobre o acesso.

Exercícios recomendados em casa

Se não houver sinais de alarme e a dor está a melhorar, é aconselhável começar com uma rotina simples, 10 a 15 minutos, duas vezes por dia:

  • Basculação pélvica: deitado de costas, joelhos dobrados, achatar a região lombar contra o chão. 10 repetições.
  • Joelhos ao peito: puxar suavemente um joelho e depois o outro contra o peito, 15 segundos cada.
  • Gato-camelo: de quatro apoios, alternar entre coluna em extensão e flexão suave.
  • Ponte glútea: deitado de costas, elevar os glúteos com contração abdominal. 10 repetições.
  • Prancha (quando melhorar): 20 a 30 segundos, progressivo.
  • Caminhada diária: 20 a 30 minutos em terreno plano.

Parar qualquer exercício que provoque dor aguda; alguma tensão muscular é normal.

Sinais de alarme: imagiologia e referenciação

A maioria das lombalgias não precisa de exame de imagem. A RM precoce pode mostrar "hérnias" assintomáticas que levam a tratamentos desnecessários. A imagiologia urgente está indicada perante:

  • Défices neurológicos progressivos (fraqueza muscular, perda de sensibilidade).
  • Incontinência urinária ou fecal nova, retenção urinária, anestesia em sela (síndrome da cauda equina: emergência cirúrgica).
  • Trauma significativo recente, sobretudo em osteoporose conhecida.
  • Febre, arrepios, perda ponderal inexplicada.
  • História de cancro prévio.
  • Dor noturna persistente e progressiva que não alivia em repouso.
  • Uso crónico de corticoides, imunossupressão.
  • Dor que não melhora após 6 semanas de tratamento conservador adequado.

Dor nas costas crónica

Define-se como dor com mais de 12 semanas. O plano muda: menos foco nos AINE em contínuo, mais foco em exercício supervisionado, abordagem multidisciplinar, terapia cognitivo-comportamental, técnicas de neuromodulação em casos selecionados. A estratégia é "andar com a dor", restabelecer função, reduzir incapacidade. A Direção-Geral da Saúde tem normas clínicas sobre lombalgia crónica.

Prevenção de recidivas

Depois do primeiro episódio, 50 por cento das pessoas voltam a ter dor nos 12 meses seguintes. Como reduzir esse risco:

  1. Manter peso saudável: cada quilo a mais sobrecarrega a coluna.
  2. Exercício regular: 150 minutos semanais de atividade moderada + 2 sessões de força. Pilates e natação são opções particularmente populares.
  3. Ergonomia no trabalho: cadeira com apoio lombar, ecrã ao nível dos olhos, pés no chão ou apoio, pausas de 5 minutos a cada hora.
  4. Dormir em colchão adequado: firmeza média.
  5. Levantar pesos com as pernas, não com as costas.
  6. Parar de fumar: tabagismo piora nutrição dos discos intervertebrais e recuperação.
  7. Gerir stress e sono: ambos têm papel reconhecido na perpetuação de dor musculoesquelética.

Tratamentos não recomendados rotineiramente

  • Repouso prolongado no leito: piora evolução.
  • Colete lombar contínuo: enfraquece musculatura. Uso pontual em tarefas pesadas aceitável.
  • Tração lombar: sem evidência consistente.
  • Injeções facetárias generalizadas: reservadas a casos com indicação clara por especialista.
  • Cirurgia precoce em lombalgia inespecífica: não resolve o problema.

Anti-inflamatórios: uso seguro

A categoria anti-inflamatórios é vasta. Regras práticas:

  • Usar durante o menor tempo possível.
  • Com proteção gástrica (IBP) se idade acima de 65 anos, úlcera prévia, uso de anticoagulante ou corticoide.
  • Vigiar tensão arterial, função renal, edemas.
  • Evitar em insuficiência cardíaca descompensada, doença renal moderada a grave, doença coronária ativa.
  • Não combinar dois AINE em simultâneo.

Ver também a categoria alívio da dor e inflamação para outras opções.

Dor nas costas e saúde mental

Ansiedade, depressão e stress crónico aumentam o risco de cronicização da lombalgia. A "dor não é tudo na cabeça", mas a cabeça modula a dor. Intervenções psicológicas estruturadas fazem parte do tratamento moderno da lombalgia crónica.

Perguntas frequentes

Devo fazer uma ressonância?

Quase nunca na fase aguda sem sinais de alarme. A imagem é útil quando muda a conduta.

Posso continuar a trabalhar?

Sim, na maioria dos casos, ajustando as tarefas mais exigentes. O afastamento prolongado do trabalho piora o prognóstico.

E o quiroprático?

Terapia manual pode aliviar a curto prazo em alguns casos, integrada num plano. Não substitui exercício.

Posso correr se tive lombalgia?

Sim, quando a dor estabilizar. Progressão gradual, calçado adequado, core fortalecido.

Conclusão

A dor nas costas aguda é, na imensa maioria dos casos, benigna e autolimitada.

Tratar cedo com movimento, calor e analgesia adequada; identificar sinais de alarme; referenciar para fisioterapia quando a dor permitir exercício supervisionado; prevenir recidivas com exercício, peso e ergonomia.

Evitar o reflexo de "ficar em casa a descansar uma semana". O tratamento moderno é ativo, educativo e multidisciplinar.

Se após 6 semanas não houver melhoria, ou se surgirem sinais de alarme, procure avaliação médica sem demora.

a equipa editorial da Prescriptsy

Notas finais da equipa editorial da Prescriptsy

A experiência clínica acumulada em medicina geral revela padrões claros sobre o que separa quem recupera bem de um episódio de lombalgia aguda de quem evolui para dor crónica.

As pessoas que recuperam bem começam cedo a mover-se, aceitam que alguma dor durante o movimento é normal e não perigosa, mantêm contacto com o trabalho (ainda que com adaptações), usam analgésicos durante o tempo estritamente necessário e investem depois em exercício regular.

As que cronificam tendem a isolar-se, a pesquisar sintomas na internet até se convencerem de diagnósticos graves, a acumular consultas e exames sem plano coerente, a consumir anti-inflamatórios durante meses sem reavaliação e a evitar movimento por medo.

Este segundo padrão pode ser invertido, mas exige tempo e uma equipa multidisciplinar paciente.

Um aspeto que costuma ser bem recebido pelos doentes é a explicação de que a coluna humana foi "desenhada" para caminhar horas por dia em terrenos variados.

Quando a vida moderna nos prende a cadeiras de escritório, volantes e sofás, a coluna protesta.

A solução não é "proteger" mais a coluna, é usá-la mais e com qualidade.

Caminhar, nadar, pedalar, subir escadas, fazer tarefas de jardim ou de casa com técnica adequada são formas simples de manter a coluna saudável.

A ginástica postural de Pilates, yoga ou método Mézières é especialmente útil em quem tem tendência a lombalgia recorrente.

Finalmente, um conselho pragmático: ter em casa um plano escrito para o próximo episódio.

Uma folha A4 com "se acordar com lombalgia: calor 15 minutos, caminhar 10 minutos, paracetamol 1 g, continuar atividade leve, se não melhorar em 48 horas começar diclofenac, contactar SNS 24 se sinais de alarme".

Este tipo de plano pessoal, elaborado em consulta prévia, evita pânico e decisões erradas no momento da crise.

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