Testes de infeções sexualmente transmissíveis: onde fazer em Portugal
Clamídia, gonorreia, sífilis, VIH e herpes: onde fazer testes DST de forma confidencial em Portugal, quanto custam e como interpretar resultados, com a equipa editorial da Prescriptsy.
Infecções sexualmente transmissíveis em Portugal: uma epidemia silenciosa
As infecções sexualmente transmissíveis (ISTs, também chamadas DSTs) estão a aumentar em Portugal e na Europa.
A Direção-Geral da Saúde registou em 2023 mais de 12.000 novos casos de clamídia, cerca de 2.500 casos de gonorreia, quase 2.000 casos de sífilis e mais de 900 novas infecções por VIH.
Os números reais são seguramente maiores, porque muitas infecções são assintomáticas e só são detectadas em rastreio oportunístico.
Como clínica geral, recebo com frequência jovens adultos preocupados depois de relações sexuais sem protecção, casais que iniciam relação estável e querem testar antes de abandonar o preservativo, e utentes com sintomas vagos que receiam consultar por vergonha. Este guia foi escrito para explicar, com a clareza que o tema merece, onde se fazem testes de ISTs em Portugal, quais os mais importantes, quanto custam, e o que fazer se um resultado for positivo. A informação é prática e actual, baseada em orientações da Direção-Geral da Saúde e da linha SNS24.
Quando fazer teste de ISTs: indicações claras
Recomenda-se testar quando: houve relação sexual sem preservativo com parceiro cujo estado serológico não conhece; há sintomas sugestivos (corrimento, dor ao urinar, lesões genitais, prurido, úlceras orais ou genitais, linfadenopatia); o parceiro actual ou recente foi diagnosticado com IST; vai iniciar relação estável e quer fazer rastreio conjunto; é homem que tem relações com homens (rastreio anual mínimo, semestral se múltiplos parceiros); iniciou PrEP contra VIH; está grávida ou planeia engravidar.
Em Portugal, rastreio anual de VIH, sífilis, clamídia e gonorreia é recomendado para jovens sexualmente activos com idade inferior a 25 anos, e para qualquer pessoa com múltiplos parceiros ou novos parceiros no último ano.
O rastreio em gravidez inclui sempre VIH, sífilis, hepatite B e hepatite C.
Clamídia: a IST mais comum e mais silenciosa
A Chlamydia trachomatis é a IST bacteriana mais prevalente em Portugal, especialmente em mulheres dos 16 aos 25 anos.
A infecção é assintomática em 70 por cento das mulheres e 50 por cento dos homens.
Quando sintomática, causa corrimento uretral ou vaginal, disúria, dor pélvica e, nas mulheres, pode evoluir para doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica e infertilidade tubária.
Nos homens pode causar epididimite.
O teste mais sensível é a PCR (NAAT) em urina de primeiro jacto ou zaragatoa endocervical, uretral, anal ou faríngea consoante as exposições. Em Portugal o teste custa 30 a 60 euros em laboratório privado e é gratuito no SNS com pedido do médico de família. O tratamento recomendado é doxiciclina 100 mg duas vezes por dia durante 7 dias, ou azitromicina 1 g dose única (menos preferível actualmente devido a resistências).
Gonorreia: cada vez mais resistente
A Neisseria gonorrhoeae pode infectar uretra, colo do útero, recto, faringe e conjuntiva.
Os sintomas são mais evidentes nos homens (corrimento uretral purulento 2 a 5 dias após exposição, disúria), mas 50 por cento das mulheres são assintomáticas.
Complicações incluem doença inflamatória pélvica, artrite séptica, endocardite e meningite em disseminação. A preocupação actual são as resistências crescentes aos antibióticos.
O diagnóstico faz-se por PCR e cultura (importante para testar sensibilidades). O tratamento recomendado pela DGS é ceftriaxona 1 g intramuscular dose única, frequentemente associado a doxiciclina 7 dias se coinfecção por clamídia. A categoria antibióticos e antivirais tem mais informação sobre os tratamentos envolvidos.
Sífilis: o grande regresso
A sífilis, causada pelo Treponema pallidum, estava quase controlada na década de 1990 mas voltou a aumentar em toda a Europa nos últimos 15 anos.
Em Portugal, os casos triplicaram na última década.
Evolui em fases: primária (cancro indolor no local de inoculação, 3 semanas após contágio), secundária (erupção cutânea, febre, linfadenopatia, 6 a 8 semanas depois), latente (assintomática, pode durar anos) e terciária (lesões cardiovasculares e neurológicas, actualmente rara).
O diagnóstico é serológico: VDRL ou RPR (não treponémicos, úteis para monitorizar tratamento) e TPHA ou FTA-ABS (treponémicos, confirmatórios). Ambos devem ser pedidos simultaneamente.
O tratamento de eleição é penicilina G benzatínica intramuscular: 1 dose na sífilis primária, secundária e latente recente; 3 doses semanais em sífilis latente tardia ou duração desconhecida.
Doentes alérgicos à penicilina são tratados com doxiciclina.
VIH: o rastreio que salva vidas
O vírus da imunodeficiência humana (VIH) continua a ser uma das ISTs mais importantes por morbilidade e mortalidade.
A boa notícia é que o tratamento anti-retrovírico transforma o VIH em doença crónica com esperança de vida quase normal, e previne transmissão (conceito U=U, indetectável = intransmissível).
A má notícia é que em Portugal ainda existem diagnósticos tardios, em doentes já com CD4 abaixo de 200 cel/µL, frequentemente com doenças oportunistas.
O rastreio faz-se com teste combinado de anticorpos e antigénio p24 (teste de 4ª geração), que detecta infecção a partir das 2 a 3 semanas após exposição.
Se positivo, confirma-se com teste molecular.
Testes rápidos de orientação estão disponíveis gratuitamente em CAD (Centros de Aconselhamento e Detecção) e em várias associações como GAT, Abraço, Checkpoint LX, sem necessidade de identificação.
Em gravidez o rastreio é obrigatório e repetido no terceiro trimestre.
Herpes genital: a infecção que não tem cura
O herpes genital é causado pelo vírus herpes simplex tipo 1 (HSV-1, crescentemente envolvido) ou tipo 2 (HSV-2).
A primeira crise é tipicamente a mais intensa: úlceras dolorosas em vulva, pénis, períneo, ânus, frequentemente com febre, mal-estar e linfadenopatia inguinal.
Depois o vírus permanece latente nos gânglios sensitivos e pode reactivar em momentos de stress, imunossupressão ou menstruação.
O diagnóstico faz-se por PCR das lesões ou por serologia (útil para distinguir primo-infecção de reactivação). O tratamento é com antivíricos orais: valaciclovir 500 mg duas vezes por dia durante 5 a 10 dias no primeiro episódio, dose episódica em recorrências, ou dose supressiva diária em doentes com mais de 6 recorrências por ano. Não há cura, mas a medicação controla bem os surtos e reduz a transmissão sexual.
Hepatites B e C, HPV e tricomoníase
A hepatite B é IST relevante, prevenível por vacinação (calendário vacinal português desde 2000). O rastreio inclui HBsAg, anti-HBs e anti-HBc. Hepatite C transmite-se sobretudo por via sanguínea, mas também sexualmente em populações específicas. A HPV causa verrugas genitais e cancros ano-genitais e orofaríngeos, sendo prevenida pela vacina (calendário nacional aos 10 anos em ambos os sexos desde 2020). A tricomoníase é uma IST por protozoário, causa corrimento amarelado e prurido vulvar, e trata-se com metronidazol 2 g em dose única ou 500 mg duas vezes por dia por 7 dias.
Onde fazer testes em Portugal: opções práticas
No Serviço Nacional de Saúde (SNS), o médico de família pode pedir todo o painel de ISTs gratuitamente.
Consultas de Infecciologia, Ginecologia, Urologia e Dermatologia também podem fazer rastreios.
Nos Centros de Aconselhamento e Detecção (CAD) e em associações como GAT, Abraço, Checkpoint LX em Lisboa, Porto, Coimbra e Algarve, faz-se teste rápido de VIH, sífilis e hepatite B e C de forma gratuita e anónima.
Em laboratórios privados (Synlab, CUF, Joaquim Chaves, Unilabs, Labco) o painel básico (VIH, sífilis, clamídia, gonorreia) custa 60 a 120 euros e tem resultado em 24 a 72 horas.
Farmácias comunitárias em Portugal oferecem testes rápidos VIH com preço de 10 a 20 euros.
Consultas de telemedicina podem prescrever análises e enviar requisição para o laboratório mais próximo.
Parceiros sexuais: a importância da notificação
Um diagnóstico de IST implica testar e tratar todos os parceiros sexuais dos últimos 6 meses (ou mais, em sífilis latente). Em Portugal a notificação é feita pelo próprio doente, confidencialmente, mas os médicos e o sistema de saúde podem ajudar através de cartas ou, em algumas unidades, contacto directo anónimo. A lógica é epidemiológica: se o parceiro não é tratado, volta a infectar. A saúde feminina e a saúde masculina dependem da responsabilidade partilhada.
Após exposição de risco: o que fazer nas primeiras 72 horas
Se houve relação sexual de risco (parceiro VIH positivo com viremia, assalto sexual, ruptura de preservativo em parceiro desconhecido), há profilaxia pós-exposição (PEP) eficaz contra VIH se iniciada nas primeiras 72 horas (idealmente nas primeiras 24 horas).
Consiste em 28 dias de anti-retrovíricos, prescritos em serviço de urgência hospitalar. Portugal tem acesso gratuito pelo SNS.
Também se pondera profilaxia antibiótica para gonorreia, clamídia e sífilis, e considera-se contracepção de emergência e hepatite B.
Prevenção: preservativo, vacinação e PrEP
O preservativo é a única medida que reduz risco para todas as ISTs e gravidez não planeada, com eficácia superior a 90 por cento se usado correctamente em todas as relações.
A vacinação contra HPV e hepatite B está no calendário nacional.
A profilaxia pré-exposição (PrEP) contra VIH, com tenofovir/emtricitabina, é disponibilizada pelo SNS a populações em risco elevado e reduz o risco de VIH em mais de 90 por cento.
Conclusão: testar é responsabilidade, não vergonha
As ISTs são frequentes, assintomáticas na maior parte dos casos, e tratáveis quando diagnosticadas cedo. A cultura portuguesa tem evoluído para menos estigma e mais literacia sexual, mas ainda há muito por fazer. Testar regularmente, falar abertamente com parceiros, vacinar e usar preservativo são pilares da saúde sexual moderna. Se tem dúvidas, o seu médico de família ou a linha SNS24 (808 24 24 24) podem orientá-lo confidencialmente. Não adie: a maior parte destas infecções resolvem-se com um antibiótico e uma conversa honesta.
Mitos comuns sobre ISTs que vejo na consulta
"Se o meu parceiro não tem sintomas, estamos seguros." Falso. A maioria das ISTs é assintomática, sobretudo em mulheres. A única forma de ter certeza é testar.
"Um teste negativo é para sempre." Falso. Cada exposição nova é um risco novo.
Alguns testes têm também janela (período entre infecção e detecção): 2 a 3 semanas para VIH 4ª geração, 4 semanas para clamídia e gonorreia por PCR, 3 a 6 semanas para sífilis, 3 meses para confirmar VIH.
"Se usar preservativo na penetração, estou protegido." O preservativo reduz, não elimina. Herpes e HPV podem transmitir-se por contacto pele a pele fora da área coberta.
Sífilis primária com cancro em zona não coberta também pode transmitir.
"Testes rápidos são menos fiáveis." Os testes rápidos de última geração têm sensibilidade e especificidade acima de 99 por cento, comparáveis a testes laboratoriais.
São instrumentos úteis de rastreio, confirmados com teste laboratorial sempre que positivos.
Saúde sexual em adolescentes portugueses
A educação sexual nas escolas portuguesas varia em qualidade. A APF (Associação para o Planeamento da Família) oferece consultas de saúde sexual e reprodutiva gratuitas.
O programa nacional de vacinação contra o HPV tem agora cobertura em ambos os sexos desde 2020, o que irá reduzir a médio prazo os cancros ano-genitais e orofaríngeos.
A contracepção de emergência está disponível sem receita em farmácia. Jovens abaixo dos 25 anos devem considerar rastreio anual de clamídia, a IST mais comum nesta faixa etária.