Alergia e febre dos fenos: o que tomar para aliviar?
Rinite alérgica e febre do feno em Portugal: anti histamínicos, corticosteroides nasais, combinação Dymista, imunoterapia e medidas ambientais. Guia clínico pela a equipa editorial da Prescriptsy.
Alergia e febre do feno em Portugal: porque afecta tantas pessoas
A rinite alérgica, vulgarmente chamada febre do feno quando sazonal, é uma das doenças crónicas mais prevalentes em Portugal.
Os estudos da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica estimam que cerca de 25 por cento dos adultos portugueses e até 35 por cento dos adolescentes apresentam sintomas compatíveis.
O impacto na qualidade de vida é subvalorizado: sono perturbado, défice de atenção no trabalho e na escola, irritabilidade, fadiga e, em muitos casos, asma concomitante.
Em 2026, o arsenal terapêutico é vasto e largamente disponível em Portugal, a maioria sem receita médica.
O desafio clínico é combinar os medicamentos certos na sequência certa, acrescentar medidas ambientais que fazem verdadeira diferença e reconhecer quando faz sentido avançar para imunoterapia específica.
Este guia apresenta uma abordagem baseada na evidência, adaptada aos pólenes e alergénios mais relevantes em Portugal.
Causas e alergénios principais em Portugal
Os alergénios inalatórios mais importantes no país variam por região e estação.
Na Primavera (Março a Maio), os pólenes de gramíneas, oliveira e plátano dominam nas regiões centro e sul.
No Outono (Setembro a Novembro) e Inverno mais quente, os pólenes de Parietaria e ciprestes aparecem, com picos em Lisboa e no Algarve.
Os ácaros do pó (Dermatophagoides pteronyssinus e farinae) são alergénios perenes, com piora relativa no Outono e Inverno.
Os epitélios de gato e cão afectam uma população crescente, e os fungos (Alternaria, Cladosporium) são relevantes em habitações húmidas.
O site da Rede Portuguesa de Aerobiologia (disponível através da Sociedade Portuguesa de Alergologia) publica os boletins semanais de pólenes por região. Seguir estes boletins ajuda os doentes a planear actividades e a ajustar a medicação preventivamente. Informação adicional sobre alergias em sns24.gov.pt.
Sintomas: distinguir rinite alérgica de constipação
Os sintomas cardinais são espirros em salva, prurido nasal, rinorreia aquosa abundante, congestão nasal e prurido ocular com lacrimejo e, por vezes, edema palpebral.
Distinguem-se da constipação por várias características: duração (a rinite alérgica persiste semanas a meses, a constipação resolve em 7 a 10 dias), ausência de febre e mialgias, predomínio de prurido, e associação a exposição a alergénios conhecidos.
A rinite alérgica classifica-se segundo a recomendação ARIA (Allergic Rhinitis and its Impact on Asthma) em intermitente ou persistente (conforme duração), e em ligeira ou moderada a grave (conforme impacto na qualidade de vida, sono, actividade social e laboral).
Esta classificação orienta a escolha terapêutica.
Anti histamínicos orais: a base para sintomas ligeiros a moderados
Os anti histamínicos H1 de segunda geração são os medicamentos de primeira linha para a rinite alérgica.
Bloqueiam a ligação da histamina aos receptores H1, aliviando prurido, espirros e rinorreia.
A vantagem sobre os de primeira geração (hidroxizina, difenidramina) é a menor passagem para o sistema nervoso central, traduzida em menor sonolência.
Em Portugal estão disponíveis vários: cetirizina (10 mg/dia), levocetirizina (5 mg/dia), loratadina (10 mg/dia), desloratadina (comercializada como Aerius, 5 mg/dia), fexofenadina (comercializada como Telfast, 120 ou 180 mg/dia), bilastina (20 mg/dia) e rupatadina (10 mg/dia). Todos têm eficácia comparável nos sintomas nasais e oculares, mas há diferenças de perfil: a fexofenadina e a bilastina são as que menos atravessam a barreira hemato encefálica, sendo frequentemente preferidas em profissionais que não toleram qualquer sonolência (condutores profissionais, operadores de máquinas, pilotos). A bilastina tem a particularidade de se tomar em jejum, pelo menos uma hora antes do pequeno almoço.
Os efeitos adversos são em geral ligeiros: cefaleia, boca seca, e ocasionalmente fadiga. Podem ser tomados de forma contínua durante a estação polínica sem perda de eficácia, ao contrário do mito popular.
Corticosteroides nasais: o passo seguinte e muito mais eficaz do que se imagina
Quando os anti histamínicos orais sozinhos não controlam os sintomas, ou quando há congestão nasal marcada, os corticosteroides tópicos nasais são o passo seguinte.
A Academia Europeia de Alergologia e Imunologia Clínica recomenda-os como primeira linha nos casos moderados a graves.
Agem localmente nas mucosas nasais, reduzindo a inflamação, a produção de muco e a hiperreactividade.
Os mais utilizados em Portugal são o furoato de mometasona (Nasonex), o propionato de fluticasona (Flixonase), o furoato de fluticasona (Avamys), o ciclesonida (Omnaris) e a budesonida. A dose habitual é uma ou duas insuflações por narina, uma vez por dia, preferencialmente de manhã. O efeito máximo só é alcançado após 1 a 2 semanas de uso contínuo, pelo que se recomenda aos doentes que comecem antes da época polínica esperada e mantenham durante toda a estação, mesmo em dias de poucos sintomas.
A absorção sistémica destes corticosteroides nasais é mínima e os efeitos adversos são raros e locais: epistaxe (geralmente por má técnica, dirigida para o septo nasal), prurido e sensação de queimor.
A técnica correcta é inclinar ligeiramente a cabeça para a frente, apontar o frasco para a orelha oposta (não para o septo) e inspirar suavemente.
Combinação anti histamínico mais corticosteroide nasal: Dymista
Para rinite persistente moderada a grave que não responde à monoterapia, o Dymista combina azelastina (anti histamínico) e propionato de fluticasona num único spray nasal. O estudo MP4004 mostrou controlo sintomático superior à soma dos componentes em monoterapia separada, com início de acção mais rápido (melhoria em 5 a 15 minutos versus dias para a fluticasona isolada). A posologia é uma insuflação por narina duas vezes por dia. É uma opção frequentemente preferida nos casos mais sintomáticos, por exemplo em doentes durante a época polínica intensa em Abril e Maio, quando a monoterapia não chega.
Descongestionantes nasais: usar com muita moderação
Os descongestionantes tópicos como oximetazolina e xilometazolina aliviam rapidamente a congestão nasal, mas o seu uso deve ser limitado a 3 a 5 dias consecutivos.
O uso prolongado causa rinite medicamentosa (rinite de rebote), em que a mucosa nasal se torna dependente do descongestionante para manter patência. A desabituação é difícil e frustrante.
Nos descongestionantes orais (pseudoefedrina), os efeitos adversos sistémicos (taquicardia, hipertensão, insónia) limitam o uso, especialmente em hipertensos e doentes cardiovasculares.
Colírios anti alérgicos e lavagem nasal
A conjuntivite alérgica, muitas vezes concomitante, beneficia de colírios específicos como cloridrato de levocabastina, olopatadina (comercializado como Opatanol) e cromoglicato.
A olopatadina é uma opção mais cómoda, uma gota em cada olho duas vezes por dia.
Em casos graves, um ciclo curto de corticosteroide oftalmológico pode ser necessário, mas apenas sob vigilância oftalmológica pelo risco de aumento da pressão intraocular e catarata.
A lavagem nasal com soro fisiológico isotónico ou hipertónico (como Sterimar ou Rhinomer) é um recurso subvalorizado.
Limpa mecanicamente pólenes, ácaros e muco, reduz a inflamação e melhora a acção dos outros tratamentos.
Recomenda-se duas a três vezes por dia durante a época polínica, particularmente ao chegar a casa.
Técnica: inclinar a cabeça sobre o lavatório, aplicar o irrigador na narina superior e deixar fluir pela narina inferior, respirando pela boca.
Imunoterapia específica: tratar a causa
A imunoterapia específica com alergénios, vulgarmente chamada vacinas antialérgicas, é a única modalidade que modifica o curso natural da doença.
Doses crescentes do alergénio purificado (por via subcutânea em consultório ou sublingual em casa) induzem tolerância imunológica, reduzindo a produção de IgE específica e aumentando a resposta reguladora.
Está indicada em rinite alérgica moderada a grave que não responde adequadamente à medicação, em doentes com fenótipo alérgico claro confirmado por testes (prick ou IgE específicas), e idealmente com alergénio único ou predominante.
A duração é de 3 a 5 anos, com benefício que se mantém anos após a suspensão.
Reduz também a progressão de rinite para asma em crianças com alergia confirmada.
Em Portugal, a prescrição é feita em consulta de Imunoalergologia, comparticipada pelo SNS em muitos casos.
Os comprimidos sublinguais para gramíneas, ácaros e ambrósia estão cada vez mais usados pela sua segurança e conveniência domiciliária.
Medidas ambientais: o que realmente funciona e o que não
As recomendações ambientais variam muito em eficácia.
O que funciona: capas anti ácaros nos colchões e almofadas (barreira integral), lavagem da roupa de cama semanalmente a 60 graus, reduzir peluches e carpetes no quarto, evitar abrir janelas em picos de pólenes, duche antes de deitar em dias de alta concentração polínica, óculos de sol ao ar livre, usar ar condicionado com filtro HEPA em casa e no carro.
O que tem eficácia limitada e nem sempre justifica o custo: desumidificadores (podem ajudar se humidade acima de 60 por cento), sprays anti ácaros, purificadores de ar sem HEPA.
Rinite alérgica e asma: uma unidade funcional
A conhecida one airway, one disease reflecte a ligação estreita entre rinite alérgica e asma: 80 por cento dos asmáticos têm rinite, e 25 por cento dos rinitícos desenvolvem asma. Tratar adequadamente a rinite melhora frequentemente o controlo da asma, reduz as exacerbações e diminui a necessidade de corticosteroides inalados. Em doentes com ambas as condições, a abordagem deve ser integrada, ver saúde respiratória e alergias para mais informação.
Alergia em crianças: particularidades
A rinite alérgica pediátrica segue princípios semelhantes, com adaptações de dose. Os anti histamínicos em xarope estão disponíveis desde os 6 meses (cetirizina, desloratadina) ou desde os 2 anos (loratadina, bilastina). Os corticosteroides nasais aprovados em idade pediátrica incluem o furoato de mometasona (a partir dos 3 anos), o furoato de fluticasona (a partir dos 2 anos) e a budesonida. A lavagem nasal com soro fisiológico é particularmente útil em lactentes e pré escolares. A consulta de Imunoalergologia Pediátrica é recomendada em casos moderados a graves, com suspeita de alergia múltipla, ou com asma concomitante. Para mais informação sobre alergias, consulte alergias.
Rinite alérgica em grávidas e lactantes
A gravidez coloca um problema particular: muitas doentes pioram espontaneamente devido à rinite gestacional, e escolher a medicação segura é fundamental.
A loratadina e a cetirizina são consideradas seguras (categoria B da antiga classificação FDA; monografia do Infarmed confirma uso). A lavagem nasal é a primeira linha.
Os corticosteroides nasais, especialmente budesonida (categoria B) e mometasona, são usados quando necessário. A imunoterapia já iniciada pode manter se, mas não se inicia durante a gravidez.
Os descongestionantes orais e tópicos devem ser evitados.
Falhas de tratamento: o que fazer quando nada parece funcionar
Se os sintomas persistem apesar de anti histamínico, corticosteroide nasal e lavagem nasal optimizados, há várias possibilidades: adesão incorrecta ou má técnica (convém rever sempre a pulverização nasal com o doente), alergénio não identificado que exige estudo alergológico completo, diagnóstico alternativo (rinite não alérgica, polipose nasal, desvio do septo, sinusite crónica), exposição oculta (mofo em casa, gato dos vizinhos).
Nestes casos, o encaminhamento para consulta de Imunoalergologia ou Otorrinolaringologia é adequado.
Quando procurar atendimento urgente
A maioria da rinite alérgica é gerida em ambulatório. Procure atendimento urgente se: surgir dispneia súbita, sibilância marcada, pieira ou aperto torácico (possível exacerbação asmática); se ocorrer inchaço dos lábios, da língua ou da garganta (possível angioedema/anafilaxia); se tiver febre alta com dor facial marcada (possível sinusite bacteriana); se houver perda súbita de visão ou dor ocular intensa. Para dúvidas urgentes não emergentes, o SNS 24 (808 24 24 24) é um bom recurso; para emergências, 112. Informação oficial sobre medicamentos autorizados em Portugal está em infarmed.pt.
Plano prático de Primavera
Para o doente típico com rinite alérgica moderada a gramíneas, recomenda-se iniciar em meados de Março: lavagem nasal duas vezes por dia, corticosteroide nasal contínuo (mometasona ou fluticasona), anti histamínico oral diário (bilastina ou fexofenadina), colírio anti alérgico em dias de pico. Se os sintomas escalam, combinar com Dymista. Manter até final de Junho ou até cessarem os boletins polínicos na sua região. Reavaliar em consulta se a resposta for insatisfatória após 4 semanas. Para a rinite perene (ácaros, animais), o esquema é semelhante mas mantém se todo o ano, com ajustes sazonais. A adesão é o maior desafio: importa recordar que a rinite alérgica não tratada é responsável por fadiga, mau rendimento e asma, e que o tratamento consistente muda profundamente a qualidade de vida.