Osteoartrite: como aliviar a dor articular no dia a dia

A osteoartrite afecta joelhos, ancas e mãos de muitos portugueses. Explico como reconhecer, que medicamentos funcionam, que exercícios ajudam e quando ponderar cirurgia.

Em resumoA osteoartrite afecta joelhos, ancas e mãos de muitos portugueses. Explico como reconhecer, que medicamentos funcionam, que exercícios ajudam e quando ponderar cirurgia.

Na consulta, a osteoartrite aparece muitas vezes com a mesma frase: "Dra., os joelhos acordam comigo de manhã".

Segue-se a descrição de rigidez matinal breve, dor ao descer escadas, estalidos e um agravamento gradual ao longo dos anos.

A osteoartrite, também chamada artrose, é a doença articular mais prevalente em Portugal e a principal causa de incapacidade nos maiores de 65 anos.

Este guia, escrito na voz da a equipa editorial da Prescriptsy, explica o que acontece dentro da articulação, que tratamentos realmente funcionam e como viver com osteoartrite mantendo qualidade de vida.

O que é a osteoartrite?

Ao contrário da ideia popular, a osteoartrite não é apenas "desgaste". É uma doença ativa da articulação inteira: cartilagem, osso subcondral, membrana sinovial, ligamentos e músculos periarticulares.

A cartilagem que reveste as extremidades ósseas perde elasticidade e afina, o osso subjacente remodela-se formando osteófitos (os "bicos de papagaio" das radiografias) e a membrana sinovial pode inflamar-se em surtos.

As articulações mais afectadas são o joelho, a anca, as mãos (especialmente as interfalângicas distais e a base do polegar) e a coluna.

Factores de risco incluem idade, sexo feminino após menopausa, obesidade, traumatismos articulares prévios, atividades profissionais com sobrecarga repetida e predisposição genética.

Como se distingue de outras dores articulares?

A dor da osteoartrite é mecânica: piora com o movimento e com a carga, alivia com o repouso. A rigidez matinal existe, mas dura menos de 30 minutos.

Não há tumefação significativa nem sinais inflamatórios marcados, excepto em surtos agudos.

Este padrão distingue-a da artrite reumatóide (rigidez matinal prolongada, articulações pequenas simétricas, inflamação sistémica), da gota (crises agudas, eritema intenso, primeiro episódio habitualmente no hálux) e das artrites infecciosas (febre, dor intensa, articulação aberta ao toque).

A radiografia confirma o diagnóstico em casos dúbios: diminuição da interlinha articular, esclerose subcondral, osteófitos e quistos. Em fases iniciais, a radiografia pode ser normal.

O pilar número um: movimento regular

Se pudesse prescrever apenas uma coisa na osteoartrite, seria exercício. A Direção-Geral da Saúde e as principais sociedades europeias concordam: o exercício regular reduz a dor, melhora a função e retarda a progressão. Os pacientes temem que o movimento "gaste mais a cartilagem". A evidência mostra o contrário: articulações imobilizadas degeneram mais depressa.

Recomendo três componentes:

  • Aeróbico de baixo impacto: caminhada, bicicleta, natação, hidroginástica, 30 minutos pelo menos 5 dias por semana.
  • Fortalecimento muscular: quadricípete forte protege o joelho; glúteos e abdutores protegem a anca. Duas sessões semanais de treino de resistência, progressivas.
  • Flexibilidade e equilíbrio: pilates, yoga suave, tai chi. Reduzem o risco de queda, especialmente importante em pessoas mais velhas.

Peso e alimentação

Cada quilo a menos tira quatro quilos de pressão sobre os joelhos durante a marcha.

Em pacientes com excesso de peso, uma perda de 5 a 10 por cento reduz significativamente a dor e a progressão radiológica.

Uma alimentação mediterrânica, rica em peixe, azeite, leguminosas, frutos secos e vegetais, tem propriedades anti-inflamatórias comprovadas. Reduzir ultraprocessados, açúcares livres e excesso de álcool é igualmente importante.

Quanto aos suplementos: a evidência da glucosamina e condroitina é modesta e heterogénea. Não proíbo, mas também não prescrevo de rotina.

O colagénio hidrolisado tem ensaios favoráveis em alguns subgrupos, sem ser revolucionário. A melhor nutrição para a cartilagem continua a ser uma dieta equilibrada global.

Medicamentos para a dor

A estratégia farmacológica é escalonada.

Primeira linha: paracetamol e AINE tópicos

O paracetamol é seguro e útil em dor ligeira a moderada, até 3 g por dia em adultos. Os AINE tópicos (gel de diclofenac, por exemplo) concentram o efeito na articulação com baixa absorção sistémica e são particularmente úteis no joelho e nas mãos. Recomendo-os antes dos AINE orais em maiores de 65 anos.

Segunda linha: AINE orais

Quando a dor não cede, os AINE orais são eficazes. O diclofenac e o naproxeno são opções clássicas da categoria anti-inflamatórios, dentro do âmbito mais geral de alívio da dor e inflamação. Devem ser usados na menor dose eficaz, pelo menor tempo possível, com protector gástrico em pacientes com factores de risco digestivo, renal ou cardiovascular.

Em pacientes com risco gastrointestinal elevado, o celecoxib, um inibidor selectivo da COX-2, tem menor incidência de úlceras e hemorragias digestivas, embora mantenha o risco renal e cardiovascular.

Terceira linha: opióides fracos

Reservo o tramadol para dor moderada a forte refractária aos AINE, por períodos curtos e com plano de retirada. Os opióides fortes têm papel muito limitado na osteoartrite crónica pelo risco de dependência e efeitos adversos.

Infiltrações intra-articulares

Nos surtos inflamatórios com derrame articular, a infiltração com corticosteróide alivia semanas a meses. Limito a três infiltrações por ano na mesma articulação.

As infiltrações com ácido hialurónico e plasma rico em plaquetas têm evidência mista e custo elevado; avalio caso a caso.

Dispositivos de apoio

Uma bengala na mão contralateral reduz até 30 por cento da carga sobre a anca dolorida. Palmilhas ortopédicas, joelheiras e órteses específicas podem ajudar em casos selecionados.

Calçado confortável, com boa amortização e salto baixo, é essencial. Saltos altos diariamente sobrecarregam joelhos e coluna.

Quando considerar cirurgia?

A artroplastia (prótese) do joelho ou anca é uma das intervenções mais bem-sucedidas da medicina moderna.

Está indicada quando a dor é incapacitante, interfere com o sono e as actividades básicas, e os tratamentos conservadores falharam.

Em Portugal, os resultados a 10 anos são excelentes: 90 a 95 por cento das próteses continuam funcionais.

A decisão é sempre partilhada, ponderando idade, peso, comorbilidades e expectativas do paciente.

A artroscopia meniscal, outrora popular, mostrou-se pouco eficaz na osteoartrite estabelecida e é hoje reservada a situações específicas como bloqueios mecânicos por fragmentos livres.

Um dia típico com osteoartrite

Na consulta, discutimos rotinas concretas. Um exemplo:

  • Manhã: 10 minutos de alongamentos suaves na cama antes de sair, duche morno, pequeno-almoço mediterrânico, gel de AINE tópico se houver dor local.
  • Meio da manhã: caminhada de 20 a 30 minutos com calçado adequado.
  • Almoço: peixe, vegetais, leguminosas, azeite, fruta.
  • Tarde: pausas a cada hora se trabalho sedentário, evitar estar em pé parado.
  • Fim de tarde: sessão de fortalecimento duas a três vezes por semana, ou pilates.
  • Noite: jantar leve, reduzir álcool, rotina de sono regular, almofada entre os joelhos se dor da anca ou da coluna.

Mensagem final

A osteoartrite não tem cura, mas tem controlo excelente quando combinamos movimento, peso saudável, analgesia racional e acompanhamento regular. O SNS 24 tem orientações úteis para pacientes e permite triagem sempre que houver dúvida. Nunca aceite a ideia de que "é da idade e não há nada a fazer". Há muito a fazer, e faz diferença todos os dias.

Osteoartrite das mãos

A osteoartrite das mãos é frequente, especialmente em mulheres após a menopausa.

Afecta sobretudo as interfalângicas distais (nódulos de Heberden), proximais (nódulos de Bouchard) e a base do polegar (rizartrose).

Causa dor, rigidez matinal breve e, ao longo dos anos, alguma deformidade.

O tratamento assenta em AINE tópicos (gel de diclofenac na articulação afectada), exercícios específicos de flexão e extensão dos dedos, órteses para o polegar quando há rizartrose sintomática e, em casos selecionados, infiltrações guiadas por ecografia.

A cirurgia é pouco frequente, reservada a casos com dor incapacitante.

Osteoartrite da coluna cervical e lombar

A espondilose cervical causa rigidez e dor no pescoço, cefaleias occipitais e, em casos avançados, irradiação para os membros superiores.

A espondilose lombar manifesta-se com lombalgia mecânica, por vezes com ciática associada.

O tratamento privilegia exercício (métodos como McKenzie, pilates clínico, hidroterapia), correcção ergonómica, educação postural e analgesia racional.

Cirurgia descompressiva apenas em casos com sinais radiculares progressivos ou claudicação neurogénica incapacitante.

Exercícios práticos para o joelho

  • Extensão terminal do quadricípete: sentado, estender o joelho totalmente contra a gravidade, manter 5 segundos, 10 repetições.
  • Elevação da perna esticada: deitado, elevar a perna a 45 graus, manter 5 segundos, 10 repetições.
  • Mini-agachamentos: apoio nas costas contra parede, descer até 45 graus, 10 repetições.
  • Step-up: subir e descer um degrau baixo, 10 a 15 vezes por perna.
  • Bicicleta estática: 20 a 30 minutos, resistência ligeira, cadência confortável.

Exercícios para a anca

  • Elevação lateral da perna: deitado de lado, 10 a 15 repetições, fortalece o glúteo médio.
  • Ponte com apoio dos pés: ativa glúteos e estabiliza a pélvis.
  • Alongamento do psoas: em posição de lunge, sentir alongamento na virilha do lado de trás.
  • Natação ou hidroginástica: actividade aquática reduz a carga articular mantendo o efeito cardiovascular e muscular.

Dor noturna e sono

A dor noturna é das queixas que mais afecta a qualidade de vida.

Estratégias: colchão adequado, almofada entre os joelhos (anca e joelho) ou sob os joelhos (lombar), analgésico antes de deitar nas fases de agudização, evitar posições que comprimam directamente a articulação.

Se a dor noturna é predominante, especialmente em repouso completo e acorda o paciente, convém rever o diagnóstico: outras causas inflamatórias podem estar presentes.

Acompanhamento clínico

Proponho consulta de reavaliação a cada 3 a 6 meses no início, depois anualmente.

Monitorizo a dor (escala numérica 0-10), a função (questionário WOMAC para joelho e anca), o peso, a tensão arterial, a adesão ao exercício e os efeitos dos medicamentos.

Pedido de radiografia apenas se mudança significativa de sintomas. Analíticos com função renal e hepática antes de AINE prolongado e anualmente depois.

Mitos sobre a osteoartrite

"Cartilagem não regenera, logo não vale a pena fazer nada": falso, a função melhora mesmo sem regeneração estrutural completa.

"Correr destrói os joelhos": corrida moderada em terreno adequado não aumenta o risco em joelhos saudáveis.

"Toda a dor é da artrose": cuidado, bursites, tendinites, fascite plantar, radiculopatias podem coexistir e precisam tratamento próprio.

"Glucosamina cura": a evidência é modesta; pode experimentar-se, não deve substituir exercício nem controlo de peso.

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