Hemorroidas: tratamento em casa e medicamentos que ajudam
As hemorroidas afectam quase metade dos adultos em algum momento da vida.
Explico causas, tratamento caseiro, medicamentos tópicos e orais e quando recorrer ao médico ou cirurgião.
Poucas queixas causam tanto embaraço quanto as hemorroidas.
Muitos pacientes chegam ao consultório depois de semanas de autotratamento com produtos escolhidos ao acaso, quando um plano simples e estruturado teria resolvido o problema em dias.
As hemorroidas são dilatações das veias do plexo hemorroidário, internas ou externas, e afectam quase metade dos adultos em algum momento.
Este guia, escrito na voz da a equipa editorial da Prescriptsy, explica o que são, como aliviar em casa, que medicamentos usar e quando procurar médico ou cirurgião em Portugal.
O que são, afinal, as hemorroidas?
Todos temos tecido hemorroidário. É uma estrutura vascular normal do canal anal que ajuda no controlo fino da continência.
Torna-se patológica quando os coxins vasculares se dilatam, prolapsam ou sangram.
Classificamos em internas (acima da linha pectínea, geralmente indolores mas com sangramento) e externas (abaixo da linha pectínea, por vezes muito dolorosas quando trombosadas).
As hemorroidas internas subdividem-se em quatro graus, conforme o prolapso e a redução espontânea ou manual.
Causas e factores de risco
A pressão aumentada nas veias hemorroidárias é o denominador comum. Contribuem:
- Obstipação crónica e esforço para evacuar.
- Diarreia crónica, que irrita a mucosa.
- Gravidez, pelo efeito mecânico e hormonal.
- Sedentarismo e estar sentado muito tempo, especialmente em sanitas.
- Dieta pobre em fibra e pouca ingestão de líquidos.
- Levantamento repetido de pesos sem técnica adequada.
- Idade avançada: o tecido conjuntivo perde suporte.
Sintomas mais frequentes
Os sintomas variam conforme o tipo. Nas internas, o mais comum é sangue vermelho vivo ao evacuar, no papel higiénico ou a pingar na sanita.
Pode haver sensação de prolapso, muco e prurido anal.
Nas externas, domina a dor, especialmente se houver trombose: uma tumefacção arroxeada, dura e muito sensível junto ao orifício anal, surgindo em horas.
Atenção: nem todo o sangue é hemorroidas. Sangue escuro, alteração persistente dos hábitos intestinais, perda de peso, anemia inexplicada ou história familiar de cancro colorrectal exigem avaliação adicional, muitas vezes com colonoscopia. O médico de família decide quando referenciar.
Tratamento em casa: medidas que funcionam
1. Fibra e líquidos
A base de tudo. O objectivo são fezes macias, formadas e fáceis de evacuar, sem esforço.
Recomendo 25 a 35 g de fibra por dia (vegetais, fruta, leguminosas, cereais integrais) e 1,5 a 2 litros de água.
Se a dieta habitual for pobre, os suplementos de psílio ou metilcelulose são um recurso excelente, aumentados progressivamente para evitar flatulência.
2. Banhos de assento
Água morna (não quente), 10 a 15 minutos, duas a três vezes por dia, especialmente após evacuar. Acalmam o esfíncter, reduzem o espasmo e aliviam a dor. Um bidé ou uma bacia simples bastam.
3. Higiene e conforto
Limpar com papel humedecido ou toalhetes sem álcool, secar dando pequenos toques em vez de esfregar. Roupa interior de algodão. Evitar estar sentado muito tempo seguido: levantar, andar, mudar de posição.
4. Hábitos na sanita
Não ler ao telemóvel durante 20 minutos. Evacuar quando o corpo pede e sair assim que terminar. Um pequeno banco que eleve os pés (postura de cócoras modificada) ajuda muito.
Medicamentos tópicos
Em Portugal existem pomadas, cremes e supositórios para hemorroidas, muitos em venda livre. Os princípios activos mais comuns são:
- Anestésicos locais (lidocaína, benzocaína): alívio rápido da dor e do prurido, uso curto (5 a 7 dias) para evitar sensibilização.
- Corticosteróides de baixa potência (hidrocortisona): reduzem inflamação e prurido, máximo 7 dias seguidos.
- Venotónicos e protectores (sulfato de zinco, bismuto, extractos vegetais): ajudam na cicatrização e acalmam a mucosa.
- Associações: a maioria dos produtos comerciais combina 2 ou 3 destas classes.
Aplicam-se após a higiene, com as mãos limpas. Supositórios são preferíveis quando há queixas internas predominantes.
Medicamentos orais
Para as crises agudas, os flavonóides micronizados (diosmina, hesperidina) reduzem o sangramento e o edema em poucos dias, em cursos de 4 a 7 dias.
Estão disponíveis sem receita na maior parte das farmácias portuguesas. A posologia inicial é habitualmente mais elevada nos primeiros dias, descendo depois a dose de manutenção.
Para a dor intensa, especialmente nas tromboses externas, podem ser necessários analgésicos. O paracetamol é a primeira escolha. Quando a dor é mais marcada, um AINE oral por poucos dias pode ajudar: o naproxeno ou o diclofenac, da categoria alívio da dor e inflamação, são opções a discutir com o médico se não houver contraindicações. Problemas digestivos? Temas relacionados em saúde digestiva.
A trombose hemorroidária externa
Esta merece capítulo próprio. Surge como um caroço doloroso na margem anal, em horas.
Se o paciente chega nas primeiras 48 a 72 horas com dor intensa, a trombectomia em ambulatório (pequeno corte com anestesia local para remover o coágulo) alivia imediatamente.
Depois das 72 horas, o quadro tende a resolver-se sozinho em 1 a 2 semanas, com banhos de assento, analgesia e pomadas. A incisão tardia raramente compensa.
Quando procurar o médico?
Recorra ao SNS 24 ou ao seu médico de família se:
- Sangramento persiste além de 1 semana ou é abundante.
- Surge dor intensa e tumefacção súbita.
- Há alteração dos hábitos intestinais, perda de peso ou fezes escuras.
- Há febre, drenagem de pus ou suspeita de abcesso.
- Tem mais de 50 anos e nunca fez rastreio do cancro colorrectal.
A Ordem dos Farmacêuticos e o INFARMED disponibilizam informação útil sobre medicamentos de venda livre e segurança.
Procedimentos em ambulatório
Quando as medidas conservadoras falham, há várias opções intermédias antes da cirurgia:
- Laqueação elástica: um anel elástico colocado na base da hemorroida interna provoca isquemia e queda em 5 a 10 dias. É a técnica ambulatória mais usada, eficaz em hemorroidas de grau II e III.
- Escleroterapia: injecção de um agente esclerosante, útil em casos selecionados.
- Coagulação por infravermelhos: alternativa eficaz para hemorroidas pequenas.
Todas se realizam sem internamento e com desconforto mínimo.
Cirurgia: quando e como?
A hemorroidectomia clássica reserva-se a hemorroidas de grau IV, tromboses recorrentes ou falência das técnicas menores. É eficaz, mas o pós-operatório é doloroso.
Técnicas mais recentes (hemorroidopexia com grampeador, desarterialização hemorroidária guiada por Doppler) oferecem menor dor, embora com custos superiores. O cirurgião geral ou proctologista decide a abordagem.
Prevenção
Quem já teve hemorroidas tende a repetir.
Manter peso saudável, dieta rica em fibra, hidratação, atividade física regular, não adiar a ida à casa de banho e gerir a obstipação precoce são medidas que reduzem significativamente as recidivas.
Na gravidez, a prevenção começa cedo: muitas mulheres desenvolvem hemorroidas no terceiro trimestre.
Mensagem final
Hemorroidas não são motivo de vergonha. São muito comuns, quase sempre benignas e respondem bem a medidas simples.
Falar cedo com o médico ou com o farmacêutico evita semanas de desconforto e exclui outras causas de sangramento.
Um plano estruturado (fibra, água, banhos de assento, tópicos certos e analgesia) resolve a maioria dos casos em poucos dias.
Hemorroidas na gravidez e pós-parto
A gravidez é um dos principais momentos de aparecimento ou agravamento de hemorroidas.
O aumento da pressão pélvica, as alterações hormonais que relaxam as paredes venosas e a obstipação frequente contribuem para isso.
O parto, especialmente se prolongado ou com esforço expulsivo intenso, pode desencadear tromboses externas.
A abordagem é essencialmente conservadora, com medidas higieno-dietéticas, banhos de assento mornos, cremes compatíveis com a gravidez (avaliar com o obstetra), flavonóides em situações específicas e, raramente, trombectomia em casos de dor incapacitante.
Após o parto, a maioria regride espontaneamente em 4 a 8 semanas.
Dieta detalhada: 30 gramas de fibra por dia
Atingir 30 g de fibra diários parece muito, mas é simples com bons hábitos. Exemplos práticos:
- Pequeno-almoço: 40 g de aveia com 1 peça de fruta e sementes de linhaça (9 g de fibra).
- Meio da manhã: 1 maçã com casca (4 g).
- Almoço: prato com leguminosas (feijão, grão) 100 g cozinhado (6 a 8 g) e vegetais crus e cozidos (4 a 5 g).
- Lanche: 1 cenoura crua ou 30 g de frutos secos (3 a 4 g).
- Jantar: vegetais variados, arroz integral ou massa integral (4 a 6 g).
Água é essencial: fibra sem água causa mais obstipação, não menos. Beber ao longo do dia e não apenas às refeições.
Quando as hemorroidas sangram muito
Sangramento abundante (a ponto de tingir a sanita, manchar roupa em vez de apenas o papel) merece avaliação médica sem demora.
Em raras ocasiões, sangramentos repetidos causam anemia por carência de ferro, que requer tratamento adicional. Uma análise simples (hemograma, ferritina) esclarece.
Nunca assuma que é sempre das hemorroidas, especialmente acima dos 50 anos ou com história familiar de cancro colorrectal.
Exames endoscópicos
A anuscopia é suficiente para avaliar hemorroidas internas.
A rectossigmoidoscopia ou colonoscopia são indicadas quando há dúvida diagnóstica, sinais de alarme, idade superior a 50 anos sem rastreio prévio, ou história familiar.
O rastreio do cancro colorrectal, por PSOF anual ou colonoscopia cada 10 anos, deve ser parte da vigilância em qualquer adulto com história de sangramento rectal, mesmo "evidente" como hemorroidário.
Atividade física e hemorroidas
Exercício regular melhora o trânsito intestinal, controla o peso e reduz a pressão pélvica a longo prazo. Actividades recomendadas: caminhada, natação, ciclismo (com selim adequado), pilates.
Cuidado com esforços intensos com apneia (levantamento de pesos muito pesados), que aumentam a pressão intra-abdominal.
Quem faz musculação deve aprender técnica de respiração (exalar no esforço), usar cintos quando apropriado e evitar gestos extremos em fases agudas.
Medicamentos que agravam
Alguns fármacos aumentam a obstipação e, indirectamente, as hemorroidas: opióides (incluindo tramadol e codeína), anticolinérgicos, alguns antidepressivos tricíclicos, antagonistas do cálcio, suplementos de ferro e alumínio. Se há necessidade desses fármacos, reforçar fibra, água e, se preciso, laxantes osmóticos (macrogol) de forma preventiva. Qualquer dúvida, falar com o médico antes de interromper.
Crianças e hemorroidas
São raras em crianças. Quando surgem, quase sempre estão associadas a obstipação crónica ou a manipulação inadequada da região. Qualquer sangramento rectal em criança merece avaliação pediátrica. Fissuras anais são muito mais comuns e confundem-se com hemorroidas nesta faixa etária.