Dor de dente: o que tomar antes da consulta no dentista

A dor de dente pode ser uma das mais intensas que existem.

Explico o que tomar em segurança, quando combinar analgésicos, quando faz sentido antibiótico e quando procurar urgência.

Em resumoA dor de dente pode ser uma das mais intensas que existem. Explico o que tomar em segurança, quando combinar analgésicos, quando faz sentido antibiótico e quando procurar urgência.

Poucos tipos de dor são tão desgastantes como a dor de dente.

Pulsátil, noturna, irradiando para o ouvido ou mandíbula, capaz de tirar o sono durante dias, é uma das razões mais frequentes para automedicação e idas à farmácia em Portugal.

Na consulta de medicina geral e familiar é frequente orientar o que fazer enquanto se aguarda consulta no dentista, que por vezes demora 24 a 72 horas a obter.

Este guia, escrito pela equipa editorial da Prescriptsy, explica por que dói, o que tomar em segurança, quando combinar analgésicos, quando faz sentido antibiótico e quando a dor é sinal de que se deve procurar urgência imediatamente.

Porque dói o dente?

Os dentes têm um núcleo nervoso (a polpa) alojado numa câmara rígida. Quando há cárie profunda, fratura, infeção ou pressão sobre essa polpa, a inflamação cresce num espaço que não dilata, gerando dor intensa. As principais causas são:

  • Cárie profunda com pulpite: dor que aumenta ao frio, depois ao calor, progredindo para dor contínua.
  • Abscesso periapical: infeção que se instala na raiz, com dor à percussão e, por vezes, inchaço facial.
  • Pericoronarite: inflamação da gengiva em torno de um dente do siso.
  • Sensibilidade dentinária: dor curta e localizada ao frio ou doce.
  • Bruxismo: dor muscular irradiada.
  • Sinusite maxilar: dor nos molares superiores que piora ao inclinar a cabeça.

A Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária tem informação de referência para orientar cuidados e prevenção.

O que tomar em segurança: a base analgésica

Paracetamol

O paracetamol é a primeira escolha em dor ligeira, em doentes que não toleram anti-inflamatórios e em gravidez.

Dose habitual: 1 g de 6 em 6 horas, máximo 4 g em 24 horas em adulto saudável.

Em hepatopatia ou consumo elevado de álcool, reduzir para 2 a 3 g diários.

Ibuprofeno

O ibuprofeno é anti-inflamatório não esteroide (AINE) e é particularmente eficaz na dor dentária pulpar e periapical, porque ataca o mecanismo inflamatório.

Dose típica: 400 mg de 8 em 8 horas, com alimento. Em dor intensa, 600 mg pontualmente, por curto prazo.

Contraindicado em úlcera péptica ativa, insuficiência renal grave, insuficiência cardíaca descompensada, gravidez no terceiro trimestre e alergia a AINE.

Em caso de risco cardiovascular importante, discutir com o médico.

Combinação paracetamol + ibuprofeno

A combinação é significativamente mais eficaz que qualquer um isoladamente.

Protocolo simples: 1 g de paracetamol + 400 mg de ibuprofeno de 6 em 6 horas (alternados ou juntos).

Esta combinação tem eficácia comparável à de opioides em ensaios clínicos de dor dentária aguda.

Naproxeno

O naproxeno é um AINE com duração de ação mais longa (12 horas). 500 mg duas vezes por dia cobrem bem o dia e a noite, reduzindo o número de doses. Contraindicações são as dos AINE em geral.

Diclofenac

O diclofenac oral (50 mg, 2 a 3 vezes por dia) ou em supositório é útil em dor dentária moderada a intensa. Perfil gastrointestinal e cardiovascular semelhante aos outros AINE.

Quando considerar tramadol

O tramadol, opioide de ação fraca, pode ter lugar em dor refratária a AINE + paracetamol, em curso muito curto (24 a 48 horas), até à consulta. Não é primeira linha, deve ser prescrito por médico e evitado em idosos, epilepsia, doentes polimedicados com ISRS/IRSN (risco serotoninérgico) e em quem conduz veículos pesados.

A categoria alívio da dor e inflamação agrupa opções disponíveis em Portugal.

Medidas locais que realmente ajudam

  • Frio externo: aplicar bolsa de gelo envolvida em pano sobre a face, 15 minutos, várias vezes por dia. Reduz edema e dor.
  • Água morna salgada: bochecho com uma colher de chá de sal em copo de água morna, 3 a 4 vezes por dia. Alivia gengiva inflamada.
  • Clorohexidina 0,12 por cento: bochecho 2 vezes por dia em pericoronarite, por curto prazo.
  • Posição: dormir com a cabeça elevada reduz pressão pulpar e melhora o sono.
  • Evitar muito frio, muito quente, alimentos doces: desencadeiam dor em pulpite.
  • Higiene cuidadosa: escovagem suave, fio dental, não mascar do lado afetado.

Quando é preciso antibiótico

A maioria das dores dentárias não precisa de antibiótico. Cárie e pulpite sem infeção sistémica resolvem com tratamento dentário (obturação, desvitalização), sem antimicrobiano. Os antibióticos entram em cena quando há:

  • Abscesso com inchaço facial progressivo.
  • Febre, mal-estar, adenopatias cervicais.
  • Trismo (dificuldade em abrir a boca).
  • Celulite facial.
  • Compromisso do doente imunodeprimido.

Amoxicilina

A amoxicilina 500 mg de 8 em 8 horas, 5 a 7 dias, é o antibiótico de primeira linha em infeção odontogénica. Em casos mais graves, associa-se ácido clavulânico.

Alternativas em alergia à penicilina

Clindamicina 300 mg de 8 em 8 horas é a alternativa mais usada. Metronidazol 400 mg três vezes por dia pode ser associado em componente anaeróbia marcada. A categoria antibióticos e antivirais enquadra estas moléculas.

O antibiótico não substitui o tratamento dentário. É uma ponte. Sem drenagem ou desvitalização, o quadro volta.

Quando procurar urgência médica imediata

  • Inchaço facial que se estende para o pescoço, disfagia ou dificuldade respiratória (risco de angina de Ludwig, emergência).
  • Febre alta persistente acima de 38,5 graus.
  • Dor intensa com alteração visual (risco de extensão para órbita).
  • Estado confusional.
  • Trismo completo.

Contactar 808 24 24 24 (SNS 24) ou ir diretamente à urgência. O portal da Ordem dos Farmacêuticos também tem linhas de orientação sobre automedicação responsável.

Dor de dente em situações especiais

Gravidez

Paracetamol é seguro. Ibuprofeno pode ser usado no segundo trimestre com parcimónia, evitado no primeiro e terceiro. Amoxicilina é segura em qualquer trimestre. Consultar sempre o obstetra em dúvida.

Amamentação

Paracetamol e ibuprofeno são compatíveis. Amoxicilina também.

Idosos e polimedicados

Preferir paracetamol em dose ajustada. AINE apenas em curso curto, com gastroprotetor. Evitar tramadol em geral.

Doentes anticoagulados

AINE devem ser evitados (risco hemorrágico). Paracetamol é primeira linha. Consultar antes de extração dentária.

Crianças

Em crianças, paracetamol ou ibuprofeno em dose pediátrica. Consulta dentária urgente, sempre.

Mitos frequentes a desmontar

  • "Aspirina na gengiva alivia": falso e perigoso. Queima a mucosa e não resolve o problema.
  • "Se tomar antibiótico cura-se sem ir ao dentista": falso. O antibiótico controla infeção sistémica, não trata o dente.
  • "Dor que passa é dente curado": falso. A dor pode cessar com necrose da polpa, enquanto a infeção continua a avançar.
  • "Calor na face alivia": depende. Em abscesso, o calor pode favorecer a progressão. Prefira frio.
  • "Se dói há semanas, já não vale a pena ir": falso. Quanto mais tempo passar, pior o prognóstico conservador.

Prevenção: o melhor analgésico

  1. Escovagem com pasta fluoretada 2 vezes por dia, 2 minutos.
  2. Fio dental ou escovilhão diário.
  3. Visita ao dentista ou higienista pelo menos uma vez por ano.
  4. Reduzir açúcares livres e bebidas acidificantes.
  5. Evitar tabaco.
  6. Tratar bruxismo com goteira em quem tem.
  7. Selantes em crianças e rastreios escolares.

Plano prático de 48 horas até à consulta

  1. Hora 0: 1 g paracetamol + 400 mg ibuprofeno com alimento. Marcar urgência dentária.
  2. Hora 6: repetir ambos.
  3. Noite: dormir com cabeça elevada. Bolsa de gelo externa 15 minutos antes de deitar.
  4. Dia 2: manter esquema. Bochecho salino 3 vezes. Se surgir inchaço facial, iniciar amoxicilina após avaliação médica.
  5. Consulta: explicar claramente a dor, o que se tomou e os horários, para evitar interações e sobreposições.

Conclusão

A dor de dente quase nunca é uma emergência com risco de vida, mas é uma das dores mais incapacitantes e deve ser levada a sério. Paracetamol combinado com ibuprofeno resolve a maioria dos casos agudos. O naproxeno é útil para doses mais espaçadas. O tramadol é reserva, por pouco tempo, sob indicação médica. O antibiótico é para infeção sistémica ou abscesso, não para cada dor. Sinais de inchaço progressivo, febre alta ou dificuldade respiratória são urgência imediata. O tratamento definitivo é sempre feito pelo dentista. Prevenção, higiene e rastreios regulares poupam muito sofrimento futuro. Quando a dor chegar, respire fundo, trate-se corretamente e marque a consulta o mais cedo possível.

Casos clínicos ilustrativos

Caso 1: homem de 34 anos com pulpite aguda

Dor pulsátil no molar inferior direito há 3 dias, que acorda durante a noite e piora com bebidas frias. Sem febre, sem inchaço facial.

À observação, ausência de trismo, percussão do 46 dolorosa e resposta marcada ao frio.

Enquanto aguarda consulta no dentista (marcada para o dia seguinte), uma abordagem habitual é paracetamol 1 g + ibuprofeno 400 mg de 6 em 6 horas, com alimento, a par de bolsa de gelo externa, posição semi-sentada para dormir e evitar extremos de temperatura.

Sem indicação para antibiótico. No dia seguinte, o dentista confirma cárie profunda com necessidade de desvitalização. Dor resolvida após abertura da câmara pulpar.

Caso 2: mulher de 42 anos com abscesso periapical

Dor no incisivo superior há 5 dias, agora com inchaço da face lateral ao nariz, sensibilidade aumentada à palpação e à mordida. Temperatura 37,8 graus.

Sem trismo, sem disfagia.

A conduta indicada é amoxicilina 500 mg de 8 em 8 horas durante 7 dias, paracetamol + ibuprofeno alternados e bochechos de clorohexidina 0,12 por cento, com referenciação para urgência dentária no próprio dia para drenagem.

Após a drenagem, a evolução é favorável, com cessação da dor em 48 horas e resolução do inchaço em 4 dias.

Caso 3: jovem de 22 anos com pericoronarite do siso

Dor e inchaço da gengiva sobre o siso inferior esquerdo, dificuldade em abrir a boca (trismo parcial), mau hálito e sensação de pressão ao mastigar. Sem febre.

A orientação habitual é ibuprofeno 400 mg de 8 em 8 horas, bochecho com água morna e sal 4 vezes por dia, clorohexidina 0,12 por cento 2 vezes e higiene cuidadosa com escovilhão da região, com marcação de consulta com o dentista para avaliação da necessidade de extração do siso.

Em 72 horas, a dor reduz cerca de 70 por cento, sem progressão para celulite. A extração é programada para 3 semanas depois, fora da fase aguda.

Erros frequentes a corrigir

  • Tomar ibuprofeno em jejum: multiplica o risco de gastrite. Tomar sempre com alimento ou leite.
  • Alternar mal paracetamol e ibuprofeno: as doses descoordenadas deixam picos de dor. Melhor tomar ambos em simultâneo, de 6 em 6 horas.
  • Suspender antibiótico quando melhora: o tratamento de 5 a 7 dias deve ser completo, mesmo com desaparecimento dos sintomas ao terceiro dia.
  • Aplicar calor na face com abscesso: pode favorecer a disseminação. Preferir frio.
  • Automedicação com antibiótico sobrante: sem avaliação, gera resistências, reação cruzada e ocultação de sinais importantes.

Farmácia portuguesa: o que dispensa sem receita

O paracetamol 500 mg e 1 g, o ibuprofeno 200 mg e 400 mg e o naproxeno 220 mg estão disponíveis sem receita, em doses e embalagens pequenas. O diclofenac oral e o tramadol requerem receita. Os antibióticos requerem sempre receita. O farmacêutico comunitário é um parceiro útil para aconselhar, verificar interações e orientar quando o quadro merece avaliação médica ou dentária urgente.

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