Atorvastatina
A atorvastatina é uma estatina de alta potência que reduz o colesterol LDL em 37-51% na dose padrão de 10-20 mg.
Inibe a HMG-CoA redutase no fígado, reduzindo a síntese de colesterol e aumentando a expressão de receptores LDL. Usada na prevenção cardiovascular primária e secundária.
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Atorvastatina: guia clínico completo para o doente português
A atorvastatina é o hipolipemiante mais prescrito em Portugal e um dos medicamentos mais estudados da história da medicina cardiovascular.
Pertence à classe das estatinas, inibidores da enzima HMG-CoA redutase, e actua directamente no fígado para reduzir a produção de colesterol.
A sua eficácia na redução do colesterol LDL, entre 37 e 51% na gama de doses habitual, e a vasta evidência de redução de eventos cardiovasculares fazem dela um pilar fundamental no tratamento da dislipidémia em Portugal.
Ao contrário de estatinas mais antigas como a sinvastatina, a atorvastatina tem uma semi-vida longa (14 horas) que permite toma única diária a qualquer hora do dia, sem necessidade de tomar ao deitar.
Esta característica, aliada à eficácia superior a doses moderadas, contribui para uma melhor adesão terapêutica, factor determinante nos resultados cardiovasculares a longo prazo.
Em Portugal, a atorvastatina está disponível em comprimidos de 10 mg, 20 mg, 40 mg e 80 mg, tanto como medicamento de marca (Lipitor) como em formulações genéricas, financiadas pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) com comparticipação para doentes com indicação clínica documentada.
A prescrição é feita pelo médico de família, cardiologista, internista ou endocrinologista, conforme o contexto clínico.
Como funciona a atorvastatina, mecanismo de acção
A atorvastatina actua como inibidor competitivo da enzima 3-hidroxi-3-metilglutaril-coenzima A (HMG-CoA) redutase, a enzima limitante na biossíntese hepática de colesterol. Ao bloquear este passo enzimático, reduz a produção intracelular de colesterol nos hepatócitos.
Esta redução intracelular de colesterol desencadeia uma resposta compensatória fisiológica: o fígado aumenta a expressão de receptores LDL na sua superfície para captar mais colesterol circulante.
O resultado é uma redução marcada dos níveis plasmáticos de colesterol LDL (o chamado "mau colesterol"), bem como de triglicéridos e colesterol VLDL.
O colesterol HDL ("bom colesterol") tende a subir ligeiramente, embora de forma menos pronunciada que a descida do LDL.
Para além dos efeitos lipídicos, as estatinas têm efeitos pleiotrópicos, propriedades anti-inflamatórias, de estabilização da placa aterosclerótica e de melhoria da função endotelial, que contribuem para a sua eficácia cardiovascular independentemente da magnitude da redução do LDL.
Indicações terapêuticas da atorvastatina
Em Portugal, a atorvastatina está aprovada pelo INFARMED para as seguintes indicações:
- Hipercolesterolémia primária (incluindo hipercolesterolémia familiar heterozigótica): quando a dieta e outras medidas não farmacológicas são insuficientes para controlar os níveis de colesterol LDL.
- Dislipidémia mista (hiperlipoproteinémia tipo IIa e IIb): elevação combinada de LDL e triglicéridos.
- Hipercolesterolémia familiar homozigótica: como adjuvante de outras terapêuticas lipídicas (aférese de LDL).
- Prevenção cardiovascular primária: doentes sem doença cardiovascular estabelecida mas com risco cardiovascular elevado (diabetes tipo 2 com factores de risco adicionais, hipertensão, tabagismo, história familiar).
- Prevenção cardiovascular secundária: doentes com doença coronária estabelecida (enfarte, angina), AVC isquémico prévio, doença arterial periférica.
As metas de colesterol LDL em Portugal seguem as orientações da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) e da Direção-Geral da Saúde (DGS): LDL inferior a 1,4 mmol/L (55 mg/dL) em doentes de muito alto risco cardiovascular, inferior a 1,8 mmol/L (70 mg/dL) em alto risco, e inferior a 3,0 mmol/L (116 mg/dL) em risco baixo a moderado.
Posologia e modo de administração
A dose inicial habitual de atorvastatina é de 10 mg uma vez por dia.
A dose pode ser ajustada pelo médico ao longo de 4 a 6 semanas consoante a resposta ao tratamento e a tolerabilidade.
A gama terapêutica é de 10 mg a 80 mg por dia.
Orientações práticas para tomar atorvastatina:
- Tomar uma vez por dia, com ou sem alimentos, a hora do dia não é crítica dada a longa semi-vida da atorvastatina.
- Engolir o comprimido inteiro com água suficiente.
- Se se esquecer de uma dose, tome-a logo que se lembre. Se já estiver próximo da hora da dose seguinte, salte a dose esquecida e retome o horário habitual. Nunca duplique a dose.
- Evitar sumo de toranja (grapefruit) e toranja em quantidade elevada, os furanocumarinos presentes inibem o CYP3A4 intestinal e aumentam os níveis plasmáticos de atorvastatina.
- Manter a toma mesmo que os exames de colesterol melhorem, a dislipidémia é uma condição crónica que requer tratamento contínuo.
Em doentes com insuficiência renal, não é necessário ajuste de dose pois a atorvastatina é metabolizada essencialmente pelo fígado. Em doentes com insuficiência hepática activa, a atorvastatina está contraindicada.
Contraindicações
A atorvastatina está contraindicada nas seguintes situações:
- Doença hepática activa ou elevações persistentes e inexplicadas das transaminases hepáticas (mais de 3 vezes o limite superior do normal).
- Gravidez, a síntese de colesterol é essencial para o desenvolvimento fetal. Mulheres em idade fértil devem utilizar contracepção eficaz durante o tratamento.
- Aleitamento materno, a atorvastatina é excretada no leite materno.
- Hipersensibilidade à atorvastatina ou a qualquer dos excipientes.
Atenção especial em doentes com antecedentes de doença muscular, hipotiroidismo não controlado, consumo excessivo de álcool, ou em tratamento com medicamentos que inibem o CYP3A4 ou a glicoproteína P, estas situações aumentam o risco de miopatia.
Efeitos secundários
A atorvastatina é geralmente bem tolerada. Os efeitos secundários mais relevantes são:
Muito frequentes e frequentes (mais de 1 em 100 doentes)
- Dores musculares (mialgia): a queixa mais comum, afectando 5-10% dos doentes. Na maioria dos casos são ligeiras e reversíveis com a suspensão ou redução da dose.
- Perturbações gastrointestinais: náuseas, diarreia, obstipação, flatulência, geralmente ligeiras e transitórias.
- Elevação das transaminases hepáticas: geralmente assintomáticas e reversíveis. Monitorizar antes de iniciar e periodicamente.
- Cefaleias.
- Hiperglicémia: ligeiro aumento do risco de diabetes tipo 2 (risco relativo aumentado cerca de 10%). O benefício cardiovascular supera amplamente este risco na grande maioria dos doentes.
Raros mas graves
- Miopatia e rabdomiólise: destruição muscular grave com libertação de mioglobina para a corrente sanguínea, podendo causar insuficiência renal aguda. Sintomas de alerta: dores musculares intensas, fraqueza muscular, urina cor de chá. Contactar o médico imediatamente ou ligar para o SNS 24: 808 24 24 24.
- Hepatotoxicidade grave: muito rara. Monitorizar transaminases.
- Neuropatia periférica: rara, geralmente reversível.
Interações medicamentosas relevantes
A atorvastatina é metabolizada pelo CYP3A4 e transportada pela glicoproteína P. Medicamentos que inibem estas vias aumentam a exposição à atorvastatina e o risco de miopatia:
- Inibidores potentes do CYP3A4: claritromicina, eritromicina, itraconazol, fluconazol, inibidores da protease do VIH (ritonavir, saquinavir), combinação requer precaução ou dose máxima reduzida.
- Ciclosporina: aumento significativo dos níveis de atorvastatina, dose máxima de 10 mg/dia se combinação inevitável.
- Fibratos (gemfibrozil, fenofibrato): aumento do risco de miopatia, evitar gemfibrozil; fenofibrato pode ser combinado com precaução.
- Colchicina: risco aumentado de miopatia.
- Anticoagulantes orais (varfarina): monitorizar INR quando iniciar ou alterar a dose de atorvastatina.
- Digoxina: a atorvastatina aumenta ligeiramente os níveis de digoxina, monitorizar.
- Sumo de toranja: inibe o CYP3A4 intestinal, evitar em grandes quantidades.
Informe sempre o médico ou farmacêutico de todos os medicamentos que toma, incluindo suplementos e medicamentos sem receita.
Uso em populações especiais
Gravidez e aleitamento
A atorvastatina está categoricamente contraindicada na gravidez.
O colesterol é essencial para o desenvolvimento fetal, nomeadamente para a síntese de hormonas esteróides e para o desenvolvimento do sistema nervoso.
Mulheres em idade fértil devem usar contracepção eficaz e interromper a atorvastatina pelo menos 1 mês antes de tentar engravidar.
Em caso de gravidez não planeada durante o tratamento, suspender imediatamente e consultar o médico.
Idosos (mais de 65 anos)
A atorvastatina pode ser usada em idosos. O risco de miopatia é ligeiramente superior em idosos, particularmente naqueles com insuficiência renal concomitante, hipotiroidismo ou polifarmácia. Monitorização clínica regular e avaliação do benefício-risco são essenciais.
Crianças e adolescentes
A atorvastatina está aprovada em crianças com 10 ou mais anos com hipercolesterolémia familiar heterozigótica. O tratamento deve ser supervisionado por um especialista pediátrico. Não está indicada em crianças com menos de 10 anos.
Insuficiência renal
Não é necessário ajuste de dose em doentes com insuficiência renal. No entanto, a insuficiência renal grave é um factor de risco para miopatia, monitorizar.
Insuficiência hepática
Contraindicada em doença hepática activa. Em doentes com história de doença hepática, usar com precaução e monitorizar as transaminases regularmente.
Monitorização e acompanhamento médico
O acompanhamento clínico regular é fundamental para garantir a eficácia e a segurança do tratamento com atorvastatina:
- Perfil lipídico: avaliar 6-8 semanas após iniciar ou ajustar a dose, depois anualmente se estável.
- Transaminases hepáticas (ALT, AST): antes de iniciar o tratamento e se surgirem sintomas sugestivos de hepatotoxicidade (fadiga, icterícia, dor abdominal). Não é necessária monitorização rotineira assintomática.
- Creatina quinase (CK): antes de iniciar em doentes de alto risco (idosos, insuficiência renal, hipotiroidismo, polifarmácia); se surgirem mialgias durante o tratamento.
- Glicémia e HbA1c: vigilância do risco de diabetes, especialmente em doentes com pré-diabetes ou síndrome metabólico.
- Consultar o médico de família ou o SNS 24 (808 24 24 24) em caso de dúvidas sobre os resultados analíticos ou sobre sintomas.
Armazenamento e conservação
Conservar a atorvastatina a temperatura inferior a 25°C, em local seco, ao abrigo da luz e da humidade. Manter fora do alcance e da vista das crianças.
Não utilizar após o prazo de validade inscrito na embalagem. Não deitar medicamentos no lixo doméstico, devolver ao farmacêutico através do sistema VALORMED.
Alternativas terapêuticas
Quando a atorvastatina não é adequada ou não atinge os objectivos terapêuticos, existem alternativas ou terapêuticas complementares:
- Rosuvastatina: estatina de alta potência alternativa, com perfil de interações farmacológicas ligeiramente diferente (não é metabolizada pelo CYP3A4).
- Ezetimiba: inibidor da absorção intestinal de colesterol, usado em combinação com estatinas quando o objectivo de LDL não é atingido.
- Inibidores da PCSK9 (evolocumabe, alirocumabe): anticorpos monoclonais para hipercolesterolémia familiar grave ou doentes que não toleram estatinas, prescrição hospitalar em Portugal.
- Colestiramina e colestipol: resinas de troca aniónica, menos usadas na prática actual.
- Modificações do estilo de vida: dieta mediterrânica, redução de gorduras saturadas e trans, aumento da actividade física aeróbica, redução do peso corporal.
Perguntas frequentes sobre atorvastatina
Consulte a secção de perguntas frequentes abaixo para respostas às questões mais comuns colocadas pelos doentes.
Referências e fontes
- INFARMED, Base de Dados de Medicamentos de Uso Humano
- DGS, Norma sobre Avaliação do Risco Cardiovascular
- SNS 24, Linha de Saúde: 808 24 24 24
- Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Normas de Orientação sobre Dislipidémia 2022
- ESC/EAS Guidelines for the Management of Dyslipidaemias 2019 (European Heart Journal)
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